Golpe do Resgate: Como Associações de Proteção Veicular Alimentam o Crime no RJ

O Ministério Público e a Polícia Civil do Rio de Janeiro estão investigando um esquema criminoso que transforma o roubo de carros em um verdadeiro negócio lucrativo. Segundo as investigações, algumas associações de proteção veicular estão negociando diretamente com criminosos para recuperar os veículos roubados, evitando assim o pagamento do seguro aos proprietários.

O Esquema Revelado

Em janeiro deste ano, um caso emblemático chamou a atenção das autoridades. Durante um assalto no bairro Engenho Pequeno, em Nova Iguaçu, a vítima reagiu, entrando em luta corporal com o bandido, que acabou baleado. No hospital, ao ser interrogado pela polícia, o criminoso fez uma declaração reveladora. Ao ser questionado sobre o valor que receberia pelo roubo, ele respondeu: “Depende do seguro”.

Para os investigadores, essa resposta não se referia a seguradoras tradicionais, mas às associações de proteção veicular. Outro suspeito que colaborou com a investigação detalhou o funcionamento do esquema: após o roubo, os veículos são levados para comunidades dominadas pelo tráfico, onde são “resgatados” pelas associações mediante pagamento de valores já tabelados.

No Complexo do Chapadão, por exemplo, os criminosos estipulam que o resgate do carro custa 10% do valor da Tabela Fipe. Dessa quantia, 70% ficam com os chefes do tráfico, enquanto os 30% restantes são divididos entre os ladrões que realizaram o roubo. Os objetos que estavam dentro do carro também são devolvidos para compor o valor do resgate.

Proteção ou Conivência?

As associações de proteção veicular funcionam como cooperativas, oferecendo serviços semelhantes aos de seguradoras, mas sem a regulamentação da Superintendência de Seguros Privados (Susep). Essa falta de supervisão criou um ambiente propício para práticas ilegais.

A nova Lei Complementar nº 213/2025, que entrou em vigor em janeiro deste ano, determinou que essas associações devem se regularizar dentro de 180 dias, prazo que termina em julho. Até lá, o setor opera em uma “zona cinzenta”, permitindo que esquemas como esse continuem a ocorrer.

Segundo o promotor de justiça Bruno Gangoni, essas associações encontraram um nicho de mercado nas áreas mais violentas da Região Metropolitana do Rio. Grandes seguradoras, por serem fiscalizadas pela Susep, deixaram de atuar nessas regiões, abrindo espaço para que essas cooperativas crescessem.

O Impacto na Criminalidade

O roubo de veículos na Baixada Fluminense aumentou 41% em um ano, enquanto a recuperação cresceu 45%. Em Belford Roxo, a recuperação de veículos roubados disparou 117%. Esses números sugerem uma relação direta entre o aumento dos roubos e o funcionamento do esquema de resgate.

De acordo com as investigações, o Comando Vermelho domina esse tipo de operação em diversas comunidades do Rio. “Isso não acontece apenas no Complexo do Chapadão ou em Belford Roxo. Esse esquema está espalhado por várias comunidades controladas pelo tráfico”, afirmou o promotor Gangoni.

A Resposta das Autoridades

A Polícia Civil abriu um inquérito para apurar o envolvimento de algumas associações de proteção veicular nesse esquema de resgates ilegais. Também está sendo investigada a possível participação de agentes públicos na rede criminosa.

Segundo o delegado André Neves, diretor do Departamento Geral de Polícia Especializada, há indícios de que algumas pessoas dentro das associações mantêm contato direto com criminosos, negociando valores específicos para a devolução dos veículos. “Esse esquema fomenta toda uma cadeia criminosa”, ressaltou.

A Susep anunciou que iniciará um cadastro oficial das associações de proteção veicular para regulamentar o setor nos próximos meses. O órgão também informou que está à disposição das autoridades para auxiliar nas investigações sobre as práticas criminosas relacionadas ao setor.

Enquanto isso, os motoristas devem ficar atentos: ao optar por uma proteção veicular não regulamentada, podem estar, sem saber, financiando um esquema que alimenta o crime organizado no estado.

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