Quando sai notícia de que as operadoras de planos de saúde tiveram lucro bilionário, muita gente pensa duas coisas ao mesmo tempo. A primeira é “então vão parar de aumentar o preço, certo?”. A segunda é “se lucraram tanto, por que o meu plano subiu do mesmo jeito?”. As duas reações são compreensíveis, mas o caminho entre lucro, custos e reajuste não é tão direto quanto parece.
Entre janeiro e setembro de 2025, as operadoras registraram lucro operacional de R$ 9,3 bilhões. Isso representa um aumento de quase 140 por cento em relação ao mesmo período do ano passado e é o maior resultado em cinco anos. Ao mesmo tempo, um indicador que funciona como o termômetro do setor, a sinistralidade, caiu. E quando a sinistralidade cai, o mercado costuma ler esse movimento como sinal de reajustes mais moderados no futuro, inclusive em 2026.
O que é sinistralidade e por que ela manda no preço
Sinistralidade é uma palavra que assusta, mas a ideia é simples. Ela mede quanto do dinheiro que a operadora recebe em mensalidades foi gasto com o uso do plano pelos beneficiários, como consultas, exames, terapias, cirurgias e internações. Se a sinistralidade está alta, significa que uma fatia maior do que entra está saindo para pagar a conta assistencial. Se está mais baixa, significa que, em média, sobrou mais margem para a operadora cobrir despesas administrativas, reservas e ainda registrar resultado.
Em 2022, a sinistralidade chegou a 88,6%. Foi um período de aumento de utilização após a pandemia, quando muita gente voltou a cuidar da saúde de uma vez só, realizando exames e procedimentos que ficaram adiados. Isso elevou custos e apertou o resultado das operadoras. Já nos primeiros nove meses de 2025, a sinistralidade fechou em 80,8%, ficando 2,3 pontos percentuais abaixo do registrado no mesmo período de 2024. Essa diferença, que parece pequena, é enorme quando se fala de um setor bilionário.
Por que a queda do índice pode indicar reajustes menores em 2026
Quando a sinistralidade cai, o raciocínio do mercado é o seguinte. Se o uso do plano ficou mais “controlado” e a conta assistencial cresceu menos do que a receita, a pressão para reajustes altos também diminui. Isso não significa que o reajuste vai ser baixo automaticamente, mas abre espaço para negociações menos dolorosas.
O efeito aparece com ainda mais força quando se observam apenas as operadoras de grande porte. Nesse grupo, a diferença do índice para o ano passado é de 2,6 pontos percentuais. Como essas empresas representam uma parte grande do mercado e influenciam padrões de preço, esse cenário tende a ditar o ritmo das correções dos planos coletivos em 2026.
Uma análise citada no material aponta que a correção dos coletivos empresariais pode ficar em apenas um dígito. Em português bem direto, isso quer dizer que o reajuste poderia ser abaixo de 10 por cento. Não é promessa e não é regra para todos, mas já muda o humor de quem negocia contrato, especialmente em empresas que sentem o plano de saúde como uma das maiores despesas do pacote de benefícios.
Planos individuais e coletivos não obedecem às mesmas regras
Aqui está um ponto que confunde muita gente. Plano individual ou familiar tem reajuste limitado por regra do setor e isso cria um teto anual. Já os planos coletivos, que incluem empresariais e por adesão, funcionam por negociação entre as partes. Isso costuma trazer reajustes mais altos, justamente porque o preço é ajustado de acordo com a experiência do grupo, os custos médicos e os parâmetros do contrato.
Ou seja, quando você ouve que pode haver reajuste menor em 2026, normalmente a conversa está mais ligada ao universo dos coletivos, onde existe espaço real de negociação e onde a queda de sinistralidade costuma ser usada como argumento objetivo na mesa.
O que muda para pequenas e médias empresas e o tal “pool de risco”
Para pequenas e médias empresas, especialmente as que têm até 29 vidas, existe um modelo comum chamado pool de risco. Nesse formato, o reajuste segue um percentual único dentro daquela operadora para contratos desse tipo. A lógica é evitar que um grupo pequeno fique refém de uma oscilação pontual, como um caso de internação cara, que pode distorcer o custo de um contrato com poucos beneficiários.
Mesmo sem garantir que o reajuste do pool ficará em um dígito, a leitura é que o crescimento do tíquete médio pode ser menor do que foi em 2025. Em outras palavras, o “peso” do aumento pode diminuir. Para a empresa, isso significa mais previsibilidade e menos susto na renovação. Para o RH, significa menos malabarismo. Para o financeiro, significa menos noites mal dormidas.
Lucro líquido alto e concentração do resultado: o que isso quer dizer na prática
Outro número relevante é o lucro líquido, que chegou a R$ 17,9 bilhões no período. Três grandes operadoras, Bradesco, SulAmérica e Hapvida, concentraram 43% do resultado operacional informado. Esse dado mostra que o desempenho do setor não é uniforme e que as maiores têm influência forte no cenário geral.
Na prática, isso reforça duas ideias. A primeira é que existe eficiência e escala pesando nos resultados. A segunda é que, na hora de negociar, cada contrato ainda vai depender da operadora, do perfil do grupo, da região, da rede e das regras do produto. Mesmo em um “ano bom”, não existe reajuste automático baixo para todo mundo.
O que o leitor leigo pode concluir sem cair em pegadinha
A leitura mais segura é simples. Se a sinistralidade caiu e o resultado das operadoras melhorou, a tendência é o mercado discutir reajustes menos agressivos em 2026, especialmente nos planos coletivos empresariais. Só que tendência não é garantia. Reajuste depende de contrato, de histórico de uso, de estratégia comercial e de como a operadora está posicionada naquele segmento.
Dá para dizer que o cenário ficou mais favorável para negociar e isso já é uma boa notícia. Talvez não seja aquela boa notícia do tipo “agora vai”, mas pelo menos é do tipo “dá para conversar sem chorar no final”. E, em plano de saúde, isso já conta como avanço.
